Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro disse Dom Pedro II

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

São Sebastião - O Padroeiro do Rio de Janeiro


Origem site da Arquidiocese da Cidade do Rio de Janeiro


Celebramos com solenidade a festa do nosso Padroeiro, São Sebastião. Voltemos ao passado, aos albores da nossa Cidade. Como nasceu, no Rio de Janeiro, essa devoção?

No arraial militar de São Sebastião, entre o Pão de Açúcar e o Morro de São João, onde desembarcou Estácio de Sá, a 1º de março de 1565, e se fortificou para expulsar os franceses de Villegaigon, era viva a presença do nosso Padroeiro. Denominou-o São Sebastião por ser este o onomástico do jovem rei português e, certamente, para colocá-lo sob a proteção do Santo Mártir romano. Diz o Padre Serafim Leite (“História da Companhia de Jesus no Brasil”, vol. I, pp. 392, 1938): ”Em 1565 fundou o Padre Gonçalo de Oliveira ‘uma casa-igreja de evocação de São Sebastião’ na cidade que Estácio de Sá fundou à sombra do Pão de Açúcar. Era de palha e algumas vezes a furaram as flechas dos tamoios”.

Áspera era a luta contra os franceses e seus aliados, os tamoios. Após dois anos de duros combates, a situação continuava crítica. A 19 de janeiro de 1567, procedente da Bahia, chega o Governador Geral, Mem de Sá, com reforços, acompanhado pelo recém-ordenado sacerdote José de Anchieta, à Baía de Guanabara. No dia seguinte, travava-se a batalha para desalojar os inimigos de um reduto fortemente defendido, provavelmente nas imediações do atual Outeiro da Glória. Vencem os portugueses na festa de São Sebastião, embora tenha sido ferido Estácio de Sá, que morreu um mês depois.

Transferida a Cidade para o morro do Castelo, foi edificada uma igreja de taipa. Logo se tornou insuficiente para os fiéis. Uma outra mais ampla “115 palmos de comprido, 50 de largo e 45 de altura” (idem, p. 393), foi inaugurada em 1588.

A 20 de dezembro de 1584 é recebida, no Rio de Janeiro, entre grandes festividades, a relíquia do Padroeiro e protetor da Cidade, cuja capela, em 1569, fora elevada à paróquia por Dom Pedro Leitão, segundo bispo da Bahia.

A tradição popular atribuía ao Santo a salvação quando três frágeis embarcações de portugueses e índios fiéis foram surpreendidas pelo inimigo.

Do lugar de onde partiram as três canoas, teve início o salutar costume de recordar o episódio. Era chamada “Festa das Canoas”, que foi pela primeira vez celebrada a 20 de janeiro de 1583. Ela comemorava o sucesso alcançado sobre as 180 canoas do adversário.

Assim tiveram origem, em situações dramáticas para a cidade que nascia, esses eventos religiosos: a “Festa das Canoas” e a procissão que se lhe seguia. Neles sobressaem a confiança na proteção divina e os sentimentos de gratidão pela graça alcançada.

O percurso vinha da enseada de Botafogo, percorria parte da baía, desembarcava nas proximidades da Misericórdia. Daí continuava com a relíquia do Mártir, portando o pálio os vereadores. Após isto, a representação da vida do Santo. Nos três dias anteriores, grandes festejos preparavam os fiéis para a festa. O Senado da Câmara assumia a tarefa das comemorações.

A procissão propriamente dita começava na igreja do morro do Castelo. Transferida para a Sé que funcionava na Igreja de Santa Cruz dos Militares, foi em 1733, por ordem régia, retornada ao Castelo, no dia 20. E outra, uma semana após, saía da Catedral de então.

A Bula de criação da Diocese do Rio de Janeiro “Romani Pontificis Pastoralis Sollicitudo”, com data de 16 de novembro de 1676, assim se refere ao nosso Padroeiro: “Ora, no Reino do Brasil, na Região que é chamada Rio de Janeiro, encontra-se, entre outras, uma povoação denominada Cidade de São Sebastião, na Diocese Brasiliense, constando de cerca de 4.000 fogos (...) com uma Igreja Paroquial sob a invocação do mesmo São Sebastião”.

No Brasil-Colônia essas solenidades ocorriam com intensidade diversa, mas a vinda de Dom João VI, com a presença da corte, aumentou o brilhantismo.

Na República, separada a Igreja do Estado, as autoridades se omitiram, mas em 1896 foi declarado pela Câmara feriado o dia 20 de janeiro. Dom Francisco de São Jerônimo, Bispo do Rio de Janeiro (1702-1721) estabelecera dia santo no Bispado, essa festa de São Sebastião.

Espiritualmente, o dia do Padroeiro preservou sua identidade na reverência do Rio de Janeiro a São Sebastião. Através dos séculos, o povo sempre se manteve fiel.

Não há mais a casa-igreja do Padre Gonçalo de Oliveira, no primitivo lugar da cidade, nem a construção mais ampla, embora de taipa, no então Morro do Castelo, para onde foi transferido o Rio de Janeiro após a vitória de Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá. Até chegar à nossa imponente Catedral de São Sebastião, na Avenida República do Chile, a primitiva matriz, depois sede do Bispo, por isso chamada catedral, peregrinou por outras igrejas: Santa Cruz dos Militares, Nossa Senhora do Rosário, e Nossa Senhora do Carmo. O que não mudou foi a devoção do povo a seu querido Patrono.

A figura de São Sebastião não é apenas um núcleo que congrega espiritualmente os cariocas. Vai além, está testemunhando – e exigindo – uma vida de acordo com os exemplos de fidelidade ao Evangelho dados pelo mártir São Sebastião. Eis o sentido da festa do Padroeiro do Rio de Janeiro.

Cardeal Eugenio de Araujo Sales

Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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