Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro disse Dom Pedro II
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quarta-feira, 21 de março de 2012

RECICLAGEM NO RIO - Rio tem pelo menos 30 normas para regular reciclagem, mas a maioria ainda é ignorada

Especialista diz que poder público deveria dar maior visibilidade a essas leis.
Emanuel Alencar
Rogério Daflon
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Funcionário da Comlurb separa recicláveis na usina do Caju: lei da coleta seletiva no Rio foi sancionada há 20 anos, mas sistema só foi implementado há uma década
Paulo Nicolella / O Globo.
RIO - Na sala de aula, os alunos anotam no caderno as noções de reciclagem. No comércio de rua ou dos shoppings, o dever de casa também é feito com esmero: fábricas e lojas de computadores aceitam equipamentos usados e os enviam para empresas credenciadas. Com a consciência tranquila, todos vão almoçar. À mesa, o barulho da cidade se confunde com o de amassadores de latinhas, obrigatórios em todos os restaurantes. Tais cenas soam familiar? Pois deveriam, caso a legislação fosse seguida à risca. A quarta reportagem da série "Desleixo insustentável" mostra que o Rio tem em vigor pelo menos 30 leis relacionadas ao reaproveitamento dos resíduos. Ou seja, não é por falta de leis que a reciclagem não deslancha na cidade.
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Para a desembargadora Maria Collares da Conceição, especialista em direito ambiental, o poder público deveria dar maior visibilidade a essas leis:

— Os governos deveriam se esforçar nesse sentido, como fazem na campanha contra a dengue.

Não foi o que ocorreu com a lei do ex-vereador Alfredo Sirkis (hoje deputado federal pelo PV) que, em 1992, instituiu a coleta seletiva na capital. Ao surfar na onda da Rio-92, previa campanhas educativas e a implantação de um projeto piloto destinado a incentivar a reciclagem do lixo.

— A Comlurb é uma empresa eficiente quanto à limpeza e ao transporte de lixo, mas tem um discurso incompatível com uma gestão moderna quando o assunto é reciclagem. Não por acaso, nunca foi subordinada à Secretaria de Meio Ambiente (ela é vinculada à Secretaria de Conservação). Não poderia imaginar que, 20 anos depois, o Rio ainda fosse conviver com índices tão baixos de reciclagem.

Coleta seletiva em 26% das escolas
O Rio vem perdendo oportunidades no setor. Em 1991, como deputada estadual, a médica Lúcia Souto criou a lei 1.831, pela qual todas as escolas da rede pública estadual seriam obrigadas a praticar a coleta seletiva. Decorridos 21 anos, a Secretaria estadual de Educação admite que, das 1.357 unidades de ensino espalhadas pelo estado, 361 praticam a reciclagem em seu dia a dia — apenas 26%. Numa delas, a Escola estadual Guadalajara, em Duque de Caxias, os alunos demonstram que a medida poderia dar bons frutos. Eles não só fazem a coleta seletiva no colégio como convencem os vizinhos a separarem o lixo.

— Os alunos foram de porta em porta convencendo as pessoas — conta a professora Elenita Bezerra. — Eles também persuadiram outras escolas e postos de saúde a fazer a reciclagem.

Secretário estadual de Educação, Wilson Risolia diz que, desde 2009, há um projeto para implementar a reciclagem em todas as escolas:

— Em quatro anos, todas terão esta prática em seu cotidiano.

O GLOBO foi conferir se, no dia a dia, a população cumpre algumas dessas leis. No Edifício Avenida Central, no Centro, a lei municipal 5.043, de 2007 — que ordena que fabricantes e lojas de computadores recebam equipamentos obsoletos — está longe de ser armazenada na memória.

— Nunca um cliente chegou aqui com um computador usado — diz Bernardo Santos, gerente de uma loja de informática. — Uma vez por ano juntamos as peças obsoletas e vendemos a um galpão na Lapa.

Formulador da lei, o vereador Aloisio Freitas (PSD) reconhece que ela "não pegou":

— Seria tão importante na cidade... Vejo sempre computadores velhos abandonados nas ruas do Centro.

A lei das sacolinhas — de autoria do atual secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc — também não foi tão assimilada pela população. Seu texto estipula desconto de R$ 0,03 a cada cinco mercadorias embaladas, por exemplo, em bolsas de pano ou em caixas de papelão. A vilã é a sacola plástica. Num supermercado de Botafogo, o analista de sistemas José Cláudio Pereira colocava as compras nas sacolinhas e ficou surpreso com a informação:

— Existe uma lei que dá desconto para quem abre mão das sacolas?!

Na casa da psicóloga Alice Tigre, em Botafogo, as sacolinhas dos supermercados servem para pôr o lixo.

— Se as sacolinhas fossem proibida, eu teria de comprar sacos de lixo — diz ela. — Esta lei não colou.

Minc contesta. O secretário alega que a lei tirou 2 bilhões de sacolas do meio ambiente, a partir do segundo semestre de 2010.

— Há diferentes tipos de leis. Algumas pegam, outras, não. Não dá para colocar todas no mesmo saco — argumenta Minc.

Para o promotor Carlos Frederico Saturnino, do Ministério Público estadual, há omissão do poder público em relação à fiscalização das leis:

— Quando há uma lei, o poder público é encarregado de fiscalizar seu cumprimento. Mas o que se vê é que ele é o primeiro a descumpri-la. Há uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente que exige a instalação de lixeiras de diferentes cores para diferentes resíduos sólidos em ruas mais movimentadas, praças e parques. Temos uma ação contra a Comlurb pelo descumprimento dessa norma.

Procurada pelo GLOBO, a Comlurb não retornou a ligação.

Multas previstas chegam a R$ 22.752

Quem insiste em não se reciclar dificilmente sofre um desfalque no bolso. As leis estaduais e municipais que remetem à necessidade de poupar o meio ambiente determinam multas que vão de R$ 50 a R$ 22.752 a quem não se enquadrar. Mas o valor máximo — estabelecido pela lei das sacolinhas, de Minc — jamais foi aplicado. Todos os 80 estabelecimentos multados desde a execução, em julho de 2010, receberam penalidades bem menores (cerca de R$ 3 mil, cada).

— Multamos oito estabelecimentos só na semana passada. Mas a penalidade máxima é aplicada apenas para casos de reincidência — diz Minc, admitindo que a fiscalização é um gargalo do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). — O quadro de fiscalização é enxuto. Porém, já este ano, estamos incorporando 40 concursados ao setor.

Já os bares e restaurantes que ignorarem a determinação de instalar amassadores de latinhas podem ser punidos em R$ 2.275. Autor da lei, o hoje deputado federal Washington Reis (PMDB) admite a ausência de multas:

— Fiz a lei para evitar acúmulo de água dentro das latas e a proliferação da dengue.

Superintendente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio, Darcílio Junqueira diz que a lei não trouxe qualquer incentivo extra.

—Já reciclamos há muito tempo — diz.



Fonte O Globo Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/rio-tem-pelo-menos-30-normas-para-regular-reciclagem-mas-maioria-ainda-ignorada-4370130#ixzz1pkSUQp00
    

terça-feira, 20 de março de 2012

RECICLAGEM NO RIO - O passo a passo da coleta de lixo que ainda engatinha

De Santa Teresa a Benfica, caminhão percorre 27km e chega ao destino final com apenas 25% de sua capacidade
Emanuel Alencar
Rogério Daflon
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O gari Luiz Carlos dos Santos, de 55 anos, recolhe embalagens de plástico e vidro numa rua de Santa Teresa e as deposita no caminhão da coleta seletiva
Pedro Kirilos / O Globo
RIO - O carioca que quiser participar da coleta seletiva de lixo precisa de zelo e disciplina. Em primeiro lugar, o caminhão só passa uma vez por semana em cada rua. E só recolhe os recicláveis — plásticos, papéis/papelão, alumínio e vidro — depositados em sacos transparentes, medida que visa a garantir que restos de comida não estão misturados ao material que vai virar insumo para indústrias.
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Ao acompanharem a coleta seletiva no dia 2 de março, repórteres do GLOBO observaram apenas alguns poucos desses sacos dispostos nas ruas de Santa Teresa. Às 8h30m, o caminhão saiu da gerência da Comlurb em Botafogo. Já na Rua Progresso, o gari Luiz Carlos dos Santos, de 55 anos, recebeu um caloroso abraço da aposentada Miriam Fontenele, de 74.

— Faço a separação do material com muito cuidado. Desde cedo espero a turma da Comlurb — conta a moradora.

Depois de oferecer água gelada aos garis, Miriam se despede. A viagem segue pelas ruas Monte Alegre, Riachuelo, Almirante Alexandrino e Dr. Júlio Otoni. Às 11h, o caminhão, com cerca de 2 toneladas de recicláveis (um quarto da capacidade) entra na Usina do Caju, para pesar.

— O caminhão está vazio. Na Tijuca, por exemplo, a quantidade de material que a gente pega é bem maior — diz o motorista do caminhão, Marcelo Bonomeddi, de 39 anos.

Depois de 150 minutos e 27 quilômetros, a máquina despeja o material num galpão da Associação Beneficente Padre Navarro, em Benfica. Lá funciona uma cooperativa, com 25 pessoas. Célia Ferreira Godinho, de 54 anos, é uma delas. Ela conta que construiu a casa dos filhos, na Penha, com o dinheiro do trabalho. Todos os dias, chega ao galpão às 7h e só vai embora às 17h. Ela recebe de R$ 400 a R$ 600 por mês.

— Agora estou fazendo um quarto para mim na Mangueira. Só saio daqui no dia que isso acabar — afirma.

Se do lado de fora os termômetros marcavam quase 40 graus, dentro do galpão o calor parecia ainda maior. Alheia ao desconforto causado pelo telhado de amianto, Deise Silva, de 45 anos, moradora do Caju, comentou, um tanto sem jeito, que prefere ser catadora a ficar em casa.

— Tenho dois filhos e um neto para criar. Aqui a gente ganha por produção: quem separa mais, ganha mais — explica. — Não vou ficar em casa recebendo ordem de marido.

Do galpão da Associação Padre Navarro, imóvel que pertence à Marinha, os recicláveis são vendidos a empresas. O quilo de papel vale 70 centavos; o de garrafas PET, R$ 1,60 e o de alumínio, R$ 2,20. O destino final é bem longe dali, em usinas de Minais Gerais, São Paulo e Paraná.

— Já houve fila aqui na porta em busca de emprego. Hoje há mais dificuldade de se conseguir mão de obra. As pessoas estão atrás de melhores oportunidades — afirma o encarregado da cooperativa, José Divaldo de Metos.

Apesar dos poucos avanços, a legislação é severa com os moradores e comerciantes que ignoram a separação do lixo: A lei 3.273/2001 diz que depositar resíduos diferentes daqueles a que se destinam os recipientes de coleta seletiva constitui infração punida com multa inicial de R$ 50. Mas, até hoje, a penalidade nunca foi aplicada a pessoas físicas ou jurídicas.



Fonte O Globo Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/o-passo-passo-da-coleta-de-lixo-que-ainda-engatinha-4340746#ixzz1pejhlFEU

domingo, 18 de março de 2012

DESLEIXO AMBIENTAL - Rio só reaproveita 3% das 8,4 mil toneladas de lixo geradas por dia

Comlurb separa apenas 0,27% desse total. O resto fica a cargo de catadores
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Aterro Jardim Gramacho, considerado o maior aterro da america latina.
Foto: Pedro Kirilos / O Globo
Aterro Jardim Gramacho, considerado o maior aterro da america latina.
Pedro Kirilos / O Globo
RIO - Cidade que vai sediar a Rio+20, conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, em junho, recicla apenas 3% de seu lixo (252 toneladas das 8.403 geradas diariamente). A Comlurb tem participação mínima nesse percentual já diminuto: só separa 22,68 toneladas, ou 0,27%. Os outros 2,73% ficam a cargo de catadores autônomos ou de cooperativas. Com isso, o Rio — que há 20 anos foi anfitrião do maior encontro sobre meio ambiente da História — joga fora uma oportunidade de se equiparar a metrópoles como Berlim (Alemanha) e Tóquio (Japão), famosas por não desperdiçarem seus recursos naturais. Capitais europeias recuperam, em média, 40% de seus resíduos. Na série de reportagens “Desleixo insustentável”, que se inicia neste domingo, O GLOBO mostra por que os cariocas ainda não têm seu lixo reciclado.

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Os motivos são muitos, a começar pela incipiente coleta seletiva. Desde a sua implantação, em 2002, o serviço não deslancha. Poucos cariocas têm o privilégio de receber um caminhão de reciclagem da Comlurb em suas portas. Dos 160 bairros da cidade, apenas 41 são atendidos semanalmente, e, mesmo assim, de forma parcial — por falta de investimentos, a coleta só ocorre em algumas ruas. Hoje, ela apresenta um desequilíbrio entre as áreas do Rio. Está mais presente nas zonas Sul (40%) e Oeste (42%) e bem menos na Norte (18%). Segundo a Comlurb, não existe coleta seletiva em favelas, o que exclui da conta um contingente de cerca de um milhão de pessoas.
— A Comlurb nunca promoveu uma campanha para que a população faça a separação de seu lixo — diz Sérgio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável do município.

Parceria de R$ 50 milhões
A maior esperança da prefeitura, por enquanto, está relacionada a um projeto que parece incapaz de resolver o problema. Assinado no ano passado, um acordo entre o município e o BNDES prevê a aplicação de R$ 50 milhões para a construção de seis galpões de triagem de materiais recicláveis. Em contrapartida, a prefeitura promete colocar mais 15 caminhões em circulação, expandindo o serviço dos atuais 41 para 120 bairros. Todos esses esforços, se bem-sucedidos, devem ampliar a coleta seletiva em apenas 2%, elevando para 5% o percentual de reciclagem na capital.
Para a presidente da Comlurb, Angela Fonti, a prefeitura precisa atacar as causas que levam aos baixos índices de reciclagem. Ela dá razão a Besserman, admitindo que a Comlurb nunca fez uma campanha de incentivo à coleta seletiva de lixo.
— A primeira causa é a própria falta de uma campanha maciça em prol da reciclagem, algo que faremos com recursos do BNDES. A nossa coleta precisa ser bem mais abrangente também. A maioria das pessoas quer reciclar seu lixo, mas nossos caminhões não passam em boa parte das ruas. E precisamos tornar o mercado legal. Às vezes, moradores de um prédio separam seu lixo e, quando o nosso caminhão passa para pegá-lo, o lixo reciclável já foi roubado. Os atravessadores ilegais precisam ser eliminados — diz Angela. — E há uma corresponsabilidade nessa história. As empresas, por exemplo, como determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos, precisam se engajar nesse processo.
Envolvimento este que, na avaliação de Angela Fonti, pode ser reforçado por medidas mais simples:
— Nosso cronograma inclui pegar o lixo orgânico e reciclável dentro das casas e dos prédios. Os galpões vão melhorar as condições de trabalho e dar um fim aos atravessadores, que diminuem o ganho dos catadores.
Hoje, o reaproveitamento do lixo acaba dependendo fundamentalmente da figura do catador. Muitos trabalham em condições precárias, inclusive na Comlurb — repórteres do GLOBO flagraram trabalhadores sem luvas dentro da usina do Caju.
Situações como essa levaram o governo federal a cobrar uma ação concreta dos municípios, exigindo que apresentem, até agosto, uma proposta de adequação à lei 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em agosto de 2010. A cidade que não se enquadrar deixará de receber investimentos da União.
— À semelhança de São Paulo e Brasília, o Rio precisa dar uma resposta à questão da reciclagem, porque ela terá um grande poder multiplicador no país. No caso do Rio, essa necessidade aumenta por causa dos grandes eventos que vêm por aí: a Rio+20, a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A prefeitura tem até agosto para estabelecer metas concretas de reciclagem — afirma Nabil Bonduki, secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente.
O prefeito Eduardo Paes concorda que o Rio tem de dar o exemplo, mas admite que o caminho é longo:
— Tivemos que sair do abaixo de zero na questão dos resíduos. Antes, tínhamos um aterro (de Gramacho) que poluía a Baía de Guanabara. Inauguramos o de Seropédica e implementamos outras ações importantes, como o decreto que exige reaproveitamento dos resíduos de todas as obras. Só agora poderemos começar a cobrar uma postura mais participativa dos cidadãos.
O envolvimento da população europeia com o tema inspirou a nova legislação nacional de resíduos. A lei determina que os municípios brasileiros joguem em aterros somente o lixo orgânico, ou seja, não reciclável. A meta deve ser atingida até 2014. O engenheiro químico José Carlos Pinto, professor da Coppe/UFRJ, diz que a lei 12.305 traz avanços em termos de conscientização. Mas defende que é preciso ir além:
— O Rio, por exemplo, é um dos grandes produtores de plástico do país. Mas as empresas daqui, ao contrário do que ocorre na Europa, não se responsabilizam pelo destino final desse material.
Para ele, sem um compromisso das empresas, é impossível fazer uma reciclagem à altura dos atuais desafios de sustentabilidade.
— Hoje, esse mercado existe por iniciativas individuais, em que o serviço do catador é feito longe das condições ideais. Mercado cuja base é sustentada por uma relação de trabalho ligada à exploração — diz José Carlos. — Em países como Japão, Canadá e Alemanha, existe a figura do catador, mas a logística da coleta é tão melhor, que o catador, com boas condições de trabalho, tem um peso muito menor na cadeia. Sem as grandes empresas envolvidas nesse processo, não há como implementar um sistema eficiente.

‘O caminhão desapareceu’
A falta de eficiência, na avaliação do chefe da Diretoria Técnica e Industrial da Comlurb, José Henrique Penido, é explicada pela ausência de investimentos maciços dos três níveis de governo.
— Em 1994, chegamos a ter 20 cooperativas de catadores nos bairros. Não restou nenhuma. Reciclagem só dá algum dinheiro para catador de rua. E ferro-velho só sobrevive porque tem gato de água e de luz. O preço do produto reciclado acaba saindo mais caro do que a matéria prima virgem. Sem pesados subsídios do governo, o sistema não vai funcionar — afirma Penido. — Não há mágica. A Alemanha gasta cinco bilhões de euros por ano para implementar um sistema eficiente. O povo alemão está muito satisfeito. E quanto ao Brasil? O país está disposto a investir?
A advogada Leonor Amaral não percebe esta disposição por parte do poder público. Ela lembra que a Comlurb chegou a fazer um “excelente serviço” de coleta seletiva em sua rua, na Praça Seca, em Jacarepaguá:
— Há quatro anos, o caminhão chegava à nossa rua, e os vizinhos, ao verem esse serviço, também se animaram. Começou a faltar e passou a vir só de vez em quando, até desaparecer por completo em dezembro do ano passado. Liguei para a Comlurb, e me informaram que estavam à espera de recursos para reimplantar o serviço em algumas ruas e expandi-lo. Mas o próprio funcionário da ouvidoria me disse que a coleta seletiva é o patinho feio.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LIXO IN RIO - Cerca de 80% do lixo produzido em todo o estado ainda têm destinação inadequada

Ratos e urubus rasgam a fantasia
Cerca de 80% do lixo produzido em todo o estado ainda têm destinação inadequada
Publicada em 09/10/2011 às 23h34mEmanuel Alencar (emanuel.alencar@oglobo.com.br)

 

RIO - A três anos da Copa do Mundo, no retrato do lixo urbano do Estado do Rio há urubus, crianças pisando em seringas e solo contaminado. Lixões a céu aberto, vazadouros clandestinos e aterros sem adequação ambiental ainda recebem 79,4% do total de resíduos domiciliares e daqueles recolhidos nas ruas do estado. Nada menos que 14 mil toneladas de lixo por dia são despejadas sem o controle necessário. Os dados foram levantados pelo GLOBO, com base em informações da Secretaria estadual do Ambiente e da Comlurb. Enquanto os aterros sanitários em operação - depósitos adequados que recebem apenas 20,6% do lixo diário - somam 14, há pelo menos 49 lixões. Sem contar os 189 vazadouros clandestinos.

VÍDEO: Coordenador de projetos da Comlurb dá detalhes sobre impasse em Gramacho

FOTOGALERIA: Confira mais imagens de Jardim Gramacho

INFOGRÁFICO: O raio x do lixo no Estado do Rio

O panorama põe em risco o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos - lei 12.305/2010 - que completou um ano em agosto. A legislação é clara: em 2014 os lixões a céu aberto e aterros controlados, como o de Jardim Gramacho, devem ser erradicados. E os estados e municípios que não apresentarem seus planos de resíduos em agosto do ano que vem perdem o direito de receber financiamento federal. Um desafio que a cada dia ganha contornos mais dramáticos. A reciclagem no Rio, por exemplo, não passa de 0,5% do total de resíduos gerados diariamente, segundo dados da Secretaria do Ambiente.

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e especialista em resíduos domésticos, Emilio Eigenheer ainda vê uma solução distante. Para ele, o principal gargalo está nos municípios do interior.

- Temos uma economia que está gerando lixo a níveis de países desenvolvidos e uma estrutura que não chegou ao século XX. Em um ano de lei quase nada avançou. Na Região Metropolitana, teremos ganhos mais rápidos, com as grandes empresas construindo aterros privados. Mas no interior, onde a produção de lixo é pequena, as empresas não vão - diz Eigenheer. - Não há mágica. Quando as prefeituras têm dinheiro, acabam resolvendo. A grande dificuldade é ter verba para bancar este negócio permanentemente. Entraves políticos nos consórcios

Os tímidos avanços refletem uma questão aparentemente trivial: quem vai pagar esta conta? O caso do lixão de Babi, em Belford Roxo, Região Metropolitana, é emblemático. Construído com dinheiro da multa do vazamento de óleo da Petrobras, na Baía de Guanabara, em 2000, acabou virando lixão, lembra o secretário do Ambiente, Carlos Minc. Hoje o depósito, onde até crianças atuam como catadores, tem um rio de chorume - resultado líquido da decomposição do lixo orgânico - e porcos circulando

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- As obras jamais foram concluídas, mudou o prefeito e já era. É por isso que apostamos em consórcios intermunicipais. Um aterro pequeno vira lixão em três semanas - afirma Minc, que reconhece as dificuldades, mas garante que a lei será cumprida "com folga". - Posso garantir o fim dos lixões da Região Metropolitana em dois anos. Com Seropédica em operação total, avançaremos muito.

Na prática, os entraves políticos não sugerem tanto otimismo. Dos 15 consórcios previstos no estado, apenas dois já estão firmados. E o Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) de Teresópolis, o primeiro aterro construído com dinheiro público, só está enterrando adequadamente lixo do próprio município. Muitos prefeitos relutam em jogar seus rejeitos em aterros sanitários por causa do preço, que chega a R$ 100 por tonelada. Transferir os custos para a população, via taxas de lixo, é assunto proibido num país que vive sob disputa eleitoral, observam especialistas. Minc afirma que o governo do estado investe anualmente R$ 30 milhões do Fecam no programa "Lixão Zero":

- Eu tenho que fazer o aterro, dar dinheiro para o remediar o lixão, e no caso do aterro sanitário privado, subsidiar as prefeituras. Os consórcios estão caminhando. O mais difícil foi a costura política - defende-se Minc.

- Só vamos conseguir reverter este quadro quando se pagar pelo serviço de coleta de lixo. É o princípio mundial do gerador-pagador, consagrado na Europa - opina o diretor executivo da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), Carlos Silva Filho. - A coleta e destinação adequada é igual a outro serviço qualquer, como o fornecimento de gás e energia. E, como tal, precisa ser remunerado. Do contrário não há sustentabilidade. Em destinação de resíduos, o Rio está atrás de Rio Grande do Sul, onde 70% do lixo produzido por dia vão para aterros sanitários, e de São Paulo, com índice superior a 50%.

O aterro de Gramacho, em Duque de Caxias, ainda é o destino de 70% do lixo domiciliar e do recolhido nas ruas da capital, segundo a Comlurb. Em março, o secretário Carlos Minc anunciava o encerramento do lixão para dezembro, com a ativação total do aterro sanitário de Seropédica. A Comlurb agora estipula o fechamento para junho de 2012. Gramacho vive um impasse. Os cerca de 1.300 catadores ainda não sabem o que fazer a partir do fim da atividade. O fundo que deveria ter sido criado para ampará-los - abastecido com dinheiro da venda do biogás da Novo Gramacho à Petrobras - ainda não saiu do papel.

Fonte O Globo http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/10/09/cerca-de-80-do-lixo-produzido-em-todo-estado-ainda-tem-destinacao-inadequada-925542533.asp#ixzz1aNYQA49d



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Rita Fernandes: 'O Carnaval de rua ficou bem melhor'



Fernando Molica - O Dia


Rio - Presidente da Sebastiana — entidade que reúne 12 dos principais blocos do Rio —, a jornalista Rita Fernandes aprovou o esquema montado em conjunto com a prefeitura para os desfiles deste ano. Segundo ela, o aumento no número de banheiros públicos, o controle do trânsito e a organização dos camelôs permitiram que os blocos se apresentassem com mais tranquilidade nos dois últimos fins de semana. “Ficou muito melhor para brincar”, comemora. Ela fala de planos como o de criação de um centro de memória do carnaval de rua.
— Qual é a sua avaliação desses primeiros desfiles?
— Melhorou muito em relação aos anos anteriores. A atuação da prefeitura foi fundamental para a organização dos desfiles. As ruas estão mais livres e limpas, graças aos banheiros e ao convênio que fizemos com a Federação das Cooperativas de Catadores e com a Comlurb. Todo o lixo é recolhido logo depois da passagem dos blocos. A parceria com a TV Globo (que patrocinou 11 blocos) injetou recursos e também permitiu que desfilássemos sem exibir marcas de empresas.
— Volta e meia se fala no risco de profissionalização dos blocos, como na Bahia. Isso pode ocorrer?
— É possível que surjam pessoas com interesse comercial no carnaval de rua, mas nossa realidade é bem diferente. Nosso carnaval é aberto, democrático, não vejo como adotar cordas para separar foliões.
— Como está a proposta de criação de um centro de memória do carnaval de rua?
— O projeto será acelerado depois do Carnaval. Queremos um espaço para reunir a história dos blocos e criar um centro de capacitação para jovens, com vários cursos e oficinas.